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Homossexualidade
e envelhecimento |
Desde
os gregos, a cultura ocidental privilegia
o jovem forte e bonito.
Como, então, aceitar e conviver com
a perda da juventude, da força física
e de não corresponder mais aos padrões
estéticos de beleza? Mais ainda, como
passar por tudo isso sendo homossexual?
Pela contagem do Censo 2000, há no
Brasil 14.536.029 pessoas com 60 anos ou mais
de idade (8,5 % da população
brasileira, sendo 45% homens, 55% mulheres).
Se 10% da população é
homossexual (segundo o Relatório Kinsey),
temos então 1.453.603 gays ou lésbicas
na Terceira Idade. A expectativa de vida ao
nascer também tem aumentado, passando
de 65,75 anos em 1990 para 68,82 anos em 2000.
O que significa que a quantidade de pessoas
gays mais velhas tende a aumentar.
Paradoxalmente, a Sociedade Brasileira de
Geriatria e Gerontologia nunca abordou em
seus congressos o tema do envelhecimento para
homossexuais. De acordo com Tereza Bilton,
vice-presidente dessa sociedade, temas ligados
à sexualidade do idoso são bastante
discutidos e pesquisados, mas não envolvendo
homossexualidade ou a continuidade dos relacionamentos
entre dois homens ou duas mulheres.
A
dificuldade de encontrar um homossexual mais
velho para entrevistar
"Homossexualidade" e "Envelhecimento"
são dois temas que - ainda! - geram
bastante controvérsias na nossa sociedade.
Juntos, dão pano para muita manga.
O percurso para escrever esta matéria
já forneceu material muito significativo
para discussão. Aparentemente, o envelhecimento
encerra mais preconceito que a homossexualidade.
Em primeiro lugar, uma pesquisa inicial na
Internet com a palavra-chave
"envelhecer" trouxe quase exclusivamente
endereços de sites sobre
"rejuvenescer": cremes, medicina
ortomolecular, reposição hormonal,
dietas e tudo o mais que a Gerontologia (ciência
do envelhecimento) é capaz de pesquisar.
Em segundo lugar: a dificuldade de encontrar
gays e lésbicas para falar sobre o
próprio envelhecimento - o que comprova
o que dizia Simone de Beauvoir: o velho é
sempre o outro, embora esse outro possa ter
a nossa idade. A abordagem por mim empregada
era dizer que estava escrevendo sobre o tema
e se ele ou ela conheciam alguém para
ser meu entrevistado. Eu tinha a intenção
e esperança de que as pessoas se oferecessem.
Inúmeras vezes, me remetiam a amigos
ou conhecidos da mesma idade (e até
mesmo mais novos!).
Parece que foi muito mais fácil assumir-se
homossexual no passado do que assumir seu
envelhecimento agora. Muitas vezes, ainda,
a conversa caía na afirmação
de uma grande potência física:
"ainda dou muito no couro", disse
um. "Os garotos não me dão
sossego", disse outro. Fui atrás
dos indicados, que se revoltaram com os amigos
pela referência a seus nomes.
Muitos
ficaram de retornar meus telefonemas e não
o fizeram.
Segundo a psicanalista Delia Catulo Goldfarb,
"geralmente existe um fator desencadeante
como uma doença, uma perda, ou até
um fato proveniente do social, algo que venha
de fora e localiza o sujeito no novo tempo.
É o outro que repentinamente nos nomeia
de velhos." O escritor João Silvério
Trevisan (que em junho lança o livro
Pedaço de Mim, antologia de artigos
sobre cultura, arte e política) conta
como percebeu o tratamento diferenciado dado
aos mais velhos: ao sair à noite, seus
amigos mais jovens recebiam os flyers e ele
não. "É como se dissessem:
como essa bicha velha ousa estar aqui."
João Silvério tem menos de 60
anos. Para ele, a cena gay é "um
extremo açougue" e o preconceito
dos gays mais jovens em relação
aos gays mais velhos é uma forma de
espelhar a opressão sofrida nos que
são ainda mais oprimidos. Da mesma
forma que os velhos, também são
"perseguidos" os
pobres, os gordos e por aí vai. "Basta
olhar o Classifolha", diz ele
refererindo-se aos anúncios pessoais
que não aceitam "idosos, obesos,
cigarro e drogas".
Outro entrevistado, de 66 anos, desistiu de
estar entre os gays, tornando-se uma pessoa
mais caseira. José Carlos foi ator
nos anos 60 e 70, gerente de casa gay nos
80. Viveu intensamente, conheceu pessoas interessantes,
escreveu para jornais e revistas, namorou
muito. No início dos anos 90, resolveu
parar de sair à noite e de ter uma
vida social ativa. Nunca leu as revistas e
livros gays popularizados no meio nos anos
90, nem nunca entrou num site GLS. Tornou-se
funcionário público num órgão
burocrático. Durante sua conversa comigo,
teve um insight: "Engraçado. Eu
esqueci muita coisa que só agora, com
esta entrevista, começo a lembrar.
Eu ia muito ao Ritz, ao Satã, frequentei
a Corinto e outras casas que ninguém
mais lembra, mas depois cansei". Por
ter estado envolvido com o meio artístico,
José Carlos acrescenta um outro elemento
para discutir seu envelhecimento: "Parece
que todo mundo deu certo, ficou famoso ou
rico, e eu acabei virando um funcionário
público médio". Pergunto
se ele não deixou escapar as oportunidades.
Ele responde, mais indiferente do que melancólico:
"Pode ser". Embora admita que sua
atividade sexual não é mais
tão constante, José
Carlos diz encontrar muitos parceiros sexuais
em ambientes não GLS, como quando passeia
com seu cachorro.
Bernardo, outro entrevistado, tem 69 anos
e mostra que a aids foi um divisor de águas
e o homem gay que tem mais de 50 anos inevitavelmente
considera-se um sobrevivente. "Nos anos
70, sauna gay era uma coisa de louco. Tinha
dia que não dava para entrar no vapor
de tanta gente fazendo sexo". (Pensei
na famosa passarela da Rave, nos anos 90,
mas só que com as pessoas sem roupa
e fazendo sexo de verdade). "Depois,
veio a época do muito medo. Você
não
sabia se estava ou não infectado e
os serviços de saúde não
aconselhavam fazer o teste. Não havia
tratamento e saber-se contaminado só
agravaria a situação. Cheguei
a ir a quatro enterros de amigos gays em dois
dias. Um pânico. Foi só depois
que as pessoas começaram a ficar mais
tranqüilas em relação à
aids - tranqüilas até de mais,
eu diria."
texto
de Ferdinando Martins