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De
mãos dadas ou E assim progridem
os costumes |
Na
tarde de quinta-feira, 6 de março de
2008, vi dois rapazes a caminhar, na rua XV,
em Curitiba, de mãos dadas. Em si,
o gesto é insignificante; ele é
significativo como duplo sintoma, pela sua
raridade.
É
raro, raríssimo, observarem-se atitudes
públicas de afeto entre homossexuais,
na sociedade brasileira, em geral, exceto
em locais muito específicos, como,
segundo constou-me, a avenida Paulista, na
cidade de S. Paulo.
Por
outro lado, são comuns, comuníssimas,
as atitudes públicas de afeto entre
homens e mulheres, como andarem de mãos
dadas e beijarem-se, o que as pessoas observam
com indiferença ou curiosidade, em
todos os casos, sem reprovação,
que, no entanto, existia em décadas
anteriores, em que um beijo entre um rapaz
e uma moça, em plena rua, era tido
por ato escandaloso, como hoje o é
um entre dois homens.
A
reação de escândalo e
de censura, é irracional nos dois casos
e preconceituosa em ambos: uma expressão
de afeto entre pessoas corresponde, sempre,
a um ato louvável, independentemente
do sexo dos envolvidos e é estranhíssimo
que eles fossem (no caso dos heterossexuais)
e sejam (no caso dos homossexuais) estigmatizados.
Provavelmente,
o estigma decorre da mentalidade anti-sexual,
tão própria das sociedades cristãs,
em que se instalou uma repressão à
sexualidade em geral e, por extensão,
às formas de expressão afetivas
associadas, direta ou indiretamente, à
sexualidade, por efeito, direto, dos dogmas
do cristianismo, religião anti-sexual
por excelência e que, neste particular,
ocasionou, ao longo dos séculos, uma
alta soma de infelicidade individual.
Do
beijarem-se ou do darem-se as mãos,
expõe-se os envolvidos passar ao copular:
a repressão deste, levou ao ocultamento
daqueles, o que reputo imoral: é imoral
a censura da expressão dos afetos simpáticos.
É anti-humano inibir-se alguém
de manifestar o seu carinho por outrem, em
público, por temor à reação
alheia, ainda que ela não se manifeste.
Felizmente,
as mentalidades vão progredindo, e
emprego este verbo na acepção
que lhe atribuía A. Comte, criador
do Positivismo (e do dístico Ordem
e Progresso): o desenvolvimento humano consiste
em tornarmo-nos mais ativos, mais inteligentes,
mais simpáticos.
Há
acréscimo de simpatia ali onde ela
pode exprimir-se; há acréscimo
de discernimento, ali onde se reconhece a
irracionalidade da repressão da simpatia
e o benigno ou, quando menos, o indiferente,
da sua manifestação. Em ambos
os casos, há mitigação
do preconceito, vale dizer, da recusa de uma
forma de afetividade e de sexualidade própria
do ser humano.
Destes
aumentos e deste abrandamento, resultam as
alterações das mentalidades
e dos costumes que elas produzem. Há
melhoramento de ambos na sociedade em que
o amor romântico pode revelar-se em
público, seja lá de quem, por
quem for: ali onde as pessoas podem exprimir
o seu sentir, sem receios, há pessoas
psicologicamente saudáveis, nisto,
ao menos: são pessoas cuja afetividade,
e, portanto, cuja natureza, o ambiente aceita
e respeita; são pessoas integradas
na sociedade, ao invés de serem por
ela marginalizadas, em parte.
No
Brasil, sobretudo nas grandes cidades, os
costumes vem progredindo, no sentido da autonomia
sexual e afetiva de cada um em relação
à opinião alheia, ou seja, face
aos preconceitos proibitivos: o que, antes,
não se podia, agora, pode-se; o que
não se pode, ainda, poder-se-á.
Antes,
nenhum heterossexual podia beijar em público;
hoje, ninguém mais se importa com a
cena correspondente. Hoje, raro homossexual
ousa beijar em público: muita gente
importa-se com a cena correspondente. Todavia,
em relação à cena dos
rapazes de mãos dadas, em plena rua
XV apinhada de gente, não observei
que ninguém a fitasse com especial
estranheza.
Para
dois homossexuais beijarem-se em público
ainda falta muito; no entanto, a mentalidade
dos brasileiros tende neste sentido. Há
algumas décadas, desapareceu o antigo
tabu acerca da sexualidade, pela qual correspondia
ela a tema proibido; nos anos mais recentes,
muitos homossexuais moços (da geração
nascida nos anos de 1990), exprimem a sua
condição desinibidamente; de
modo antes inexistente, certos políticos
ocupam-se dos direitos dos homossexuais e
muitos juízes os reconhecem nos processos
que julgam.
Trata-se
de sintomas de que a mentalidade do brasileiro
melhorou em relação à
homossexualidade, e com certeza assim prosseguirá.
O casal que observei de mãos dadas,
encarna o primeiro que deparei: o primeiro
de muitos
Por
Arthur Virmond de Lacerda Neto